by Silverdory at Deviant

A função dos indivíduos no capitalismo de crise

Breves reflexões a partir da literatura de Stephen King

Por Joelton Nascimento:

“(…) o capitalismo é o primeiro sistema de extração de vantagens da atividade humana que não depende de diretas relações pessoais e, por conseguinte, é o sistema que menos pode ser descrito e criticado como moralmente condenável.”

No longo conto de Stephen King O Nevoeiro (2011) tudo começa com uma tempestade violenta. Logo depois dessa tempestade um estranho nevoeiro toma conta de uma pequena cidade no interior do Maine, cenário favorito das estórias de King. Um pai e seu filho vão a um supermercado enquanto a mãe/esposa fica em casa. Pai e filho, além dos outros clientes deste supermercado são surpreendidos então com o aparecimento repentino de terríveis criaturas, meio insetos, meio monstros, que, ao que tudo indica, saíram de uma experiência militar que deu muito errado em uma base ali perto. Dezenas de pessoas presas em um supermercado, entremeadas de mercadorias e cercadas por criaturas horrendas e sedentas de sangue humano: esse é o cenário onde se desenvolve a trama de O Nevoeiro, que virou filme em 2007 pelas mãos de Frank Darabont.

O conto pode ser lido como uma alegoria do momento de crise estrutural do capitalismo que vivemos[1]. Mesmo com um mundo abarrotado de mercadorias, ainda assim, fomos surpreendidos pela monstruosa surpresa de que este mundo não é exatamente aquilo que pensamos que era. Temos a sensação de que experiências secretas conduzidas por aqueles que têm a obrigação de nos proteger e zelar pela normalidade de nosso mundo deram muito errado e agora existem monstros soltos devorando nossas vidas ou, menos dramaticamente, devorando nossas “economias” que até então eram normais e relativamente saudáveis. Esta é a aparência das coisas no senso comum.

Até aí tudo bem. Chamo a atenção do leitor para o fato de que, quanto maior a crise, maiores as suas repercussões. Uma crise estrutural profunda pode gerar a ansiedade e, no limite, o pânico. Em um momento de pânico somos levados a fazer coisas que em geral não faríamos. Além disso, damos ouvidos a discursos prontos que, em outras situações, desdenharíamos completamente. É o que acontece no supermercado fictício do conto de King quando, de momento a momento muitos começam a dar ouvidos ao discurso religioso fundamentalista da Sra. Carmody, uma carola até então inofensiva para a comunidade. Ela corre para se adiantar e dar uma explicação toda pronta para o surgimento daquelas criaturas, convencendo a todos que aquilo fazia parte de um plano divino de expurgação dos muitos pecados dos homens, que precisavam se redimir destas faltas diante de Deus e seus mandamentos, etc.

Temos visto nos últimos anos que a direita política, e mesmo a extrema-direita, tem se levantado cada vez mais para dizer como a Sra. Carmody, algo que pode ser resumido como um “eu sei o que está acontecendo e sei também o que devemos fazer para sair desta situação”. Ela tem feito um discurso que tem, em alguns lugares, como na Ucrânia e na Hungria, seduzido as classes médias, ensinando-as a marchar pelos “valores tradicionais”, Deus e a família, como modos de fazer frente à avalanche da crise econômica do liberalismo sem freio[2]. Não resta qualquer dúvida de que o discurso reacionário é inconsistente. Colocar valores como os da “família” e “Deus” para fazer frente às complexidades da economia capitalista supostamente globalizada e seus impasses e contradições, suas crises e destruições, é como usar um fuzil para fazer sorvete, ou seja, é puro descalabro, trata-se de algo autoevidente. Mas por que esse discurso absurdo tem ainda arrastado tanta gente? Pelas mesmas razões que a Sra. Carmody convence alguns clientes do supermercado de King a fazer sacrifícios humanos para aplacar a ira divina: vive-se em um momento de perturbação, onde tudo parece fora de lugar, as pessoas estão em choque, atordoadas, traumatizadas, chocadas. Em circunstâncias normais, ninguém daria muita atenção à Sra. Carmody, mas naquele momento de crise, ela parece a única a manter convicções! Então sua retórica “não parece tão descabida, afinal”. Circunstâncias emergenciais demandam pontos de vista e medidas extremas, certo? Pronto. Aos poucos a Sra. Carmody já vai formando um pequeno séquito de fundamentalistas.

O leitor deve ler o conto de King ou ver o filme de Darabont para saber o que acontece com a Sra. Carmody em O Nevoeiro. Mas a Ucrânia tem mostrado que a direita não tem uma saída a oferecer. A única razão para que ela tenha um discurso sedutor foi a audácia e a prontidão de se colocar desde já como a resposta aos problemas do momento. Audácia que muitas vezes falta à esquerda, que não poucas vezes se junta passivamente à força-tarefa de salvação do capitalismo e esquece de que é possível agir para a construção de uma alternativa social e estrutural ao “capitalismo de desastre” (Klein).

Ainda que ninguém verdadeiramente honesto e inteligente tenha na manga a “saída” para a crise estrutural do capitalismo que vivemos, podemos, entretanto, desde já dizer: a Sra. Carmody não![3]

A partir do momento em que se deu a entrada do Brasil no centro do torvelinho da crise econômica, também aqui vimos nascer, de maneira bem mais acentuada a partir de junho de 2013, diversos “ódios políticos” novos, decorrentes, primordialmente, da incompreensão da natureza, da abrangência e da profundidade da crise estrutural do capitalismo em curso.

Outra obra bem mais antiga de King que nos ajuda a pensar este problema dos afetos políticos em tempos de crise é Zona Morta de 1979 (2009), que também tem uma versão cinematográfica filmada por David Cronenberg em 1983. Um professor do ensino médio, John Smith, sofre um grave acidente de carro e fica mais de quatro anos em coma; ao acordar, além de danos neurológicos leves, ele adquire o misterioso dom de prever o futuro ao tocar as pessoas. Ao apertar as mãos de um cínico candidato a deputado chamado Greg Stillson, Smith antevê seu futuro como presidente dos Estados Unidos e o modo como ele precipitará uma guerra nuclear de proporções bíblicas, causando um apocalipse global. O professor vive então o dilema de ter que agir drasticamente para evitar a catástrofe ou apenas aguardar seu desfecho certo sem interferir em seu destino. Deixo também que o leitor confira por si a decisão de Smith, seja no romance de King ou no filme de Cronenberg – em ambos o final é bastante semelhante. O que eu chamo a atenção do leitor nesta estória é do apocalipse como um futuro certo e tido como a consequência da ação de um único homem e não de toda uma época. A tendência ao individualismo parece não ter repercussões apenas em nossa concepção de vida em sociedade, mas também na concepção de morte em sociedade. Smith tem a convicção de que Stillson será algo como um “anticristo” a levar, em grande medida por seus próprios atos, a toda uma sociedade para as trevas de um caos. Em momentos de crise é mais do que comum que busquemos o quanto antes uma narrativa confortável para nela nos instalar. Como Smith, parece que precisamos acreditar que as causas e efeitos dos maiores problemas que vivemos se enquadrem o melhor possível nas atitudes subjetivas de indivíduos “chaves” da história[4].

Esta crença decorre ainda do modo como entendemos a política ao longo de toda a modernidade. A política somente é, na maioria das vezes, pensada e praticada como a tomada de consciência dos antagonismos e dos consensos em curso dada uma certa conjuntura. Por isso, quem faz o quê, com quem, por quê, sob que bandeiras e com quais recursos são os enigmas aos quais todo e qualquer agente político precisa responder se quiser agir politicamente quando isto for de seu interesse. Vem daí essa fixação que temos em traços de caráter como definidores de nossos destinos: coragem, amor, perseverança, mas também, cinismo, crueldade e frieza; quem são os amigos e os inimigos e por aí vai. Nossos destinos estariam ligados não a quaisquer abstrações, mas sim a traços concretos do caráter dos indivíduos que, por ocasião do destino, se encontram em pontos “chave” do desenvolvimento da História. Que nós tenhamos colocado em movimento processos histórico-sociais que acontecem independentemente de nosso controle consciente não costuma fazer parte do modo como concebemos em geral o mundo em que vivemos.[5]

Essa fixação por personagens “chave” da história aparece claramente em outras obras de Stephen King. No romance Novembro de 63 (2013), por exemplo, outro professor, Jacob Epping, encontra um jeito de realizar viagens ao passado, mais precisamente, a um determinado ponto do passado, em 1958. Ele então percebe que pode modificar profundamente a História ao evitar o assassinato do presidente John Kennedy em 22 de novembro de 1963. Epping acredita piamente que salvar a vida de Kennedy modificará – para melhor – toda uma época histórica ignorando o fato de que os profundos abalos vividos globalmente nos anos 60 e 70 vão muito além daquilo que um político poderia fazer – ainda que seja o presidente do país mais influente do mundo.

Aos que acreditam que nossos problemas são “políticos” no sentido acima, isto é, que são o resultado da ação concertada e orquestrada de vilões todo-poderosos que controlam o sistema capitalista global e que precisam ser combatidos por aqueles que são atingidos pelas consequências nefastas das ações destes vilões, resta se apegar a este sentimento que move os personagens de King, como John Smith, Jacob Epping – e em alguma medida a Sra. Carmody – de que algumas figuras “chaves” são tudo aquilo que precisamos extirpar para melhorarmos a situação do mundo. A meu ver, esta é uma fonte inesgotável de ódio politicamente orientado, mas uma fonte miserável para a verdadeira emancipação social.

Somos partícipes dos principais problemas que julgamos encontrar nos “vilões” de nosso tempo. Em geral, costumamos comprar a ideia de que somos 99% de inocentes contra 1% de culpados, mas por outro lado, sabemos em algum nível que as coisas não se passam exatamente desse modo: uma catástrofe do tamanho como a que se desenha no horizonte de nossos dias não é obra de uma minoria vilã, não importando quão poderosa possamos considerá-la.

Como bem disse Anselm Jappe “numa sociedade que não está apenas assente na produção de mercadorias, mas na qual o trabalho que as produz é o principal laço social, era inevitável que, com o tempo, o narcisismo se tornasse o traço psíquico mais típico” (2012, p. 103). E o que isto implica? “O narcisista pode parecer uma pessoa ‘normal’, mas na verdade ele nunca abandonou a fusão original com o mundo circundante, e faz tudo para manter a ilusão de onipotência que daí resulta” (2012, p. 128). E por conseguinte, continua ele, “Não por acaso, encontramos aqui a mesma perda do real, a mesma ausência do mundo – de um mundo reconhecido na sua autonomia fundamental – que caracteriza o fetichismo da mercadoria” (2012, p. 128-129). Que haja uma dimensão do mundo que pode escapar inteiramente à vontade livre de si ou de outrem, e que portanto, não é uma criação ideológica de um grupo ou classe qualquer, mas o resultado de uma socialização narcisista que produz subjetividades narcísicas ao invés de ser produzido por elas, é algo que dificilmente conseguimos conceber.

Mecanismos impessoais de produção e de troca sociais constituem fundamentalmente o capitalismo, diferente de todas as outras épocas da história humana[6]. O dinheiro, a forma da mercadoria e o assalariamento são mais do que artifícios de logro de uma classe pela outra. Muito embora o marxismo do movimento operário tenha uma forte retórica moral contra a exploração do trabalho, o capitalismo é o primeiro sistema de extração de vantagens da atividade humana que não depende de diretas relações pessoais e, por conseguinte, é o sistema que menos pode ser descrito e criticado como moralmente condenável.

Entretanto, isto não é razão para uma depressão social generalizada ou aceitação irrestrita de culpa e dos castigos que decorreriam desta culpa. Sim, somos todos partícipes, e precisamente por isto mesmo podemos realizar uma transformação qualitativa em nosso predicamento social e ambiental. Para tanto, precisamos abandonar de uma vez por todas a crença de que só precisamos derrotar, anular, ou mesmo exterminar um determinado grupo de pessoas para resolvermos nossos grandes problemas: nada pode advir dessa crença além do próprio ódio que ela alimenta.

Fonte:  Academia.edu

Imagem: At deviant by Silverdory

Dados do autor:

Joelton Nascimento, Doutor em Sociologia pela UNICAMP, Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT, onde também realizou estudos em Filosofia e Comunicação Social.

Notas:

[1] Designamos aqui crise estrutural como outra modalidade de crise socioeconômica capitalista que excede os limites da mera crise cíclica. Há diversas leituras atuais da atual crise na chave de seu caráter estrutural, cf. inicialmente (MÉSZÁROS, 2009).

[2] Parece que a situação descrita por Marcuse nos anos trinta é uma constante na história do capitalismo: em momentos críticos há sempre terreno fértil para uma crítica ao liberalismo pela direita. Cf. (MARCUSE, 1997).

[3] É evidente que existem princípios e premissas que podem iluminar uma reconstrução da socialização para além do capitalismo: conselhismo, autogestão, associativismo, (neo)comunismo; entretanto, tais princípios não são cartas na manga de indivíduos e grupos (sobretudo os inteligentes e honestos) mas sim pontos de partida de uma difícil reconstrução teórica e prática de uma superação quase que inteiramente porvir. Não existem mapas e referências que nos guiem plenamente nesta superação, que está teórica e praticamente ainda por ser feita.

[4] O marxismo tradicional também tem sua narrativa confortável. Segundo ela, a classe trabalhadora é a única força capaz de presidir a superação do capitalismo pela via de sua vontade organizada; toda e qualquer tese que fuja ainda que minimamente a essa narrativa é logo considerada como do campo oposto, antagônico, “contrarrevolucionário”.

[5] Para uma visão mais detalhada da questão da política em nosso tempo, cf. (JAPPE, 2013).

[6] Sobre a passagem dos fetiches pessoais ao fetiche da mercadoria, Cf. (KURZ, 2014)

.

Referências Bibliográficas:

JAPPE, Anselm. Sobre a balsa da medusa. Tradução: José Alfaro. Lisboa: Antígona, 2012.

                          . Crédito à morte. A decomposição do capitalismo e suas críticas. Tradução: Robson J. F. de Oliveira. São Paulo: Hedra, 2013.

KURZ, Robert. Dinheiro sem valor – Linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política. Tradução: Lumir Nahodil. Lisboa: Antígona, 2014.

KING, Stephen. A Zona Morta. Tradução: Mario Molina. Rio de Janeiro: Ponto de Leitura/Objetiva, 2009.

                        .O Nevoeiro. IN                          . Tripulação de Esqueletos. Tradução: Louisa Ibañez. Rio de Janeiro: Ponto de Leitura/Objetiva, 2011.

                          . Novembro de 63. Tradução: Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Suma das Letras/Objetiva, 2013.

MARCUSE, Herbert. O combate ao liberalismo na concepção totalitária de Estado. IN Cultura e Sociedade.Volume I. Tradução de Wolfgang Leo Maar, Isabel Maria Loureiro, Robespierre de Oliveira. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

MÉSZÁROS, István. A crise estrutural do capital. Tradução: Francisco Raul Cornejo et alii. São Paulo: Boitempo, 2009.

 

Comments are closed.

%d bloggers like this: