Vincent Van Gogh, Riposo dopo il lavoro, 1890

O camponês e o operário

Por Giorgio Agamben:

Os historiadores do futuro não deixarão de se espantar com o fato de que para fazer desaparecer uma cultura – que, em suas linhas gerais, havia permanecido inalterada por cinquenta mil anos – tenha sido preciso tão pouco tempo.

Apesar de minha desconfiança em relação a prêmios e punições, aceitei receber o prêmio Nonino, apenas pela razão explícita a que ele se propõe em seu estatuto: a “valorização da cultura camponesa”. É com base nessas duas palavras “cultura camponesa” que gostaria de refletir com vocês. Porque mesmo se algo da cultura camponesa continua a viver, nós sabemos que ela não existe mais, que pertence ao passado. Nos anos em que nasci os camponeses ainda constituíam a maior parte da população italiana, mas a minha geração os viu progressiva e rapidamente desaparecer. Os historiadores do futuro não deixarão de se espantar com o fato de que para fazer desaparecer uma cultura – que, em suas linhas gerais, havia permanecido inalterada por cinquenta mil anos – tenha sido preciso tão pouco tempo. E não menos surpreendente é a facilidade com a qual nos deixamos persuadir pelos charlatães do progressismo, de que se tratava de um fenômeno irremediável – tão irremediável, todavia, que, para realizá-lo, curiosamente foi necessário exercer uma violência sem precedentes sobre os interessados.

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Não me refiro apenas ao extermínio dos camponeses da União Soviética, um verdadeiro genocídio – gostaria de lembrar disso hoje, justamente o dia da memória das vítimas – que fez o dobro, ou mesmo o triplo, de vítimas que o extermínio dos judeus. Refiro-me também à violência – porque se tratou de uma forma de violência, mesmo se mais dissimulada – que foi necessária para deportar as populações agrícolas do Sul para as fábricas do Norte.

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Era necessário que isso fosse feito – foi o que nos disseram – porque uma nova figura epocal se mostrava na soleira da história e, então, marcaria o curso dos séculos por vir: o operário. Em 1938, é publicado o livro de Ernst Jünger com o título: Der Arbeiter, O operário – um livro que deveria exercer uma considerável influência tanto na direita quanto na esquerda do cenário político europeu. No centro do livro está a descrição e a teorização dessa nova figura epocal que deveria substituir os camponeses (os quais, para falar a verdade, foram apenas nomeados por Jünger), a aristocracia e a burguesa no domínio do mundo. Toda a modernidade se coloca, segundo Jünger, sob seu signo: a técnica – são as suas palavras – “é apenas o modo em que a figura do operário mobiliza o mundo”.

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Pois bem: tudo isso era falso, simplesmente falso. Essa decisiva figura epocal, que foi exaltada, descrita, representada e celebrada incontáveis vezes, com amor e também com ódio e desprezo, desapareceu com a mesma velocidade com a qual aparecera. Por certo ainda existem operários, mas o operário como figura epocal hoje pertence ao passado, assim como o camponês, de quem deveria ter tomado o lugar. Não é fácil dizer qual é a figura histórica que temos diante de nós – se o tecnocrata, o cientista, ou qualquer outro personagem digital mais obscuro de quem mal conseguimos ver o rosto – mas certamente não será o operário.

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Jakobson falou, a propósito do destino trágico dos poetas russos do início do século XX, de “uma geração que dissipou seus poetas”: certamente nós somos a geração que em poucos decênios dissipou um antiquíssimo patrimônio e não sabe bem o que colocar em seu lugar.

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Gostaria de terminar com três palavras de um autor que escreveu o testemunho mais extraordinário sobre o fim da cultura camponesa: Carlo Levi. Nos mesmos anos, dois judeus homônimos, e esse é um fato sobre o qual não se deveria cansar de refletir, Carlo Levi e Primo Levi, publicam os dois livros certamente mais importantes da literatura italiana do século XX: Cristo parou em Eboli (1945) e É isto um homem (1947). No romance de Carlo Levi O relógio, publicado em 1950 e ambientado nos meses de 1945, em que o governo Parri, nascido do Comitê de Libertação Nacional, cai para dar lugar ao desastre político que nós conhecemos e que o autor lucidamente vislumbra, Levi propõe dividir o mundo em duas classes: os Camponeses e os Luigini. Os Camponeses são aqueles que “fazem as coisas, as amam e com elas se alegram”. Camponeses são, para Levi, não apenas os camponeses em sentido estrito, mas também os industriais, os artesãos, os empreendedores, os matemáticos, os poetas, as donas de casa – em suma, todos aqueles que “fazem coisas”. Luigini são todos os outros: os burocratas, os organizadores, os políticos, a classe média e os pequenos burgueses de toda espécie, que vivem desfrutando do trabalho e da inteligência dos Camponeses.

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“A verdade”, escreve de maneira profética Levi, “é que a própria forma dos nossos partidos é luigina, a técnica da luta política e a estrutura mesma de nosso Estado são luiginas”. A Itália, creio eu, jamais existiu, exceto, talvez, naqueles poucos meses ou naqueles dois anos, entre 1945 e 1947 – até as eleições de 1948, que assinalaram o triunfo dos Luiginos –, nos quais por um momento se mostrou finalmente possível a supressão dos Luiginos pelos Camponeses. Dedico este prêmio aos Camponeses e não aos Luiginos.

Fontes:

http://flanagens.blogspot.com.br/2018/02/o-campones-e-o-operario-giorgio-agamben.html (trad.: Vinícius N. Honesko)

https://www.quodlibet.it/agamben-contadino-operaio

Image:

Vincent Van Gogh, Riposo dopo il lavoro, 1890.

 

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